EXTRA #73 - Queria ser grande só para apoiadores
inventário de uma grandeza reticente
Eu corri para ser adulta. Via meninas na TV fazendo tudo que eu queria fazer — viajar sozinha, morar sozinha, passear pela cidade sozinha — e o que elas tinham em comum era a idade, 18 anos pra cima (bem pra cima no caso de Sex and the City). Eu, então, mirei nessa idade, a idade da libertação.
A besteira disso, como tantas da adolescência, é que eu já era uma garota cheia de liberdades. Podia muito mais do que minhas amigas: ficar até tarde por aí, viajar para a praia sem os pais e ir e vir pelo bairro e arredores como bem entendesse. Mas, sei lá, naquele momento não parecia ser assim, não era uma experiência brilhante como nos filmes.
Saí da escola, entrei no cursinho e depois na faculdade com a sensação de agora vai. Daí veio o trabalho, o dinheiro, as contas, as responsabilidades. E uma nova versão de liberdade. Tinha um gosto bom, inebriante, mas com um fundinho amargo, com notas de cadê o meu tempo, cadê os momentos de pura espontaneidade, as horas comigo mesma, criando cenários imaginários, conversas mirabolantes, novas personalidades para eu assumir no futuro? A vida se tornou prática demais.
No livro Anne de Green Gables, de L. M. Montgomery e tradução de Márcia Soares Guimarães, há um trecho em que Marilla percebe o amadurecimento de Anne com tristeza. Não por medo de perder contato com a garota, mas por sentir falta das características mais efusivas da criança:
- Você não fica mais tagarelando como costumava fazer, Anne, nem usa mais tantas palavras complicadas. O que foi que aconteceu?
Anne enrubesceu e sorriu, enquanto largava o livro e olhava sonhadoramente pela janela, para contemplar os grandes botões vermelhos que cresciam na trepadeira, em resposta ao calor do sol da primavera.
- Não sei... não tenho mais tanta vontade de falar - ela respondeu, pensativa, pressionando o dedo indicador contra o queixo. – É melhor guardar pensamentos bonitos e queridos dentro do coração, como tesouros. Não quero que ninguém ria de meus pensamentos, ou que se admire com eles. E, não sei por que, também não desejo mais usar palavras complicadas. É uma pena, não é?... Logo agora que estou ficando suficientemente grande para usar todas que eu quiser... Em alguns aspectos, é divertido ser quase adulta, mas não é o tipo de diversão que eu esperava, Marilla. Tenho tanta coisa para pensar, aprender e fazer, que não sobra tempo para me dedicar às palavras complicadas. (2020, Montgomery, p. 262-263)
Meu flerte ingênuo com a vida adulta acabou sendo breve. Eu logo saquei a armadilha, as dores que acompanham o processo. Eu queria ser grande, mas desisti no meio do caminho. Só que não existe retorno. Uma vez grande, grande serei.
Mas não sem pequenas resistências, leves rebeliões. Escrever é uma delas. Ler muitos e muitos livros, com mundos irreais e personagens incríveis, é outra.
São elas que me dão gás quando a rotina me puxa para a grandeza. E estou num desses momentos mais uma vez. Ainda que tenha tomado cuidado para não fazer carreira, CDF como sou, cresci e cresci mais do que planejei, mais do que esperava que reconhecessem e agora me encontro num cargo de destaque.
Estou feliz, vinha sendo treinada há alguns anos para essa vaga e a ocupando interinamente com grande frequência nos últimos tempos. Mesmo assim, a comemoração veio acompanhada de um desconforto. E não da ordem da insegurança impostora, mas, sim, da categoria será que essa posição combina comigo? Onde vou colocar minhas revoltas? Estou pronta para ser mais adulta ainda?!
Conversando sobre isso com um grande amigo, recebi de volta uma linda e sensata mensagem:
Quando a gente começa na nossa profissão, os primeiros anos são de aprendizado, deslumbramento, medo. É a fase infantil. Depois a gente vive a fase da juventude em que a gente se apaixona pelo trabalho e curte com prazer, com responsabilidade limitada. Depois vem a maturidade, que eu acho que você está começando agora. Aumenta a responsabilidade e o prazer diminui. Você não faz necessariamente o que gosta, mas é escolhido para fazer. Se recusar, acaba encruando e sendo eternamente imaturo. Você vai ter uma experiência profissional muito rica, tenha certeza.
Eu vou encontrar meu jeito de ser grande, porque eu nunca desisti pra valer.
Queria ser grande, mas desisti também é livro \o/
E se quiser me acompanhar em tempo nada real: @babibomangelo



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Acho que esse é um dos meus textos preferidos, entre os que já li, escritos por você. Que domínio inspirador das palavras para traduzir sentimentos. Em muitos, muitos momentos me percebo assim, principalmente sobre as minhas ambições de carreira. Parabéns pela conquista, Babi. Tenho certeza que foi muito merecida! Te admiro!
“Navegar é preciso, viver não é preciso.”
A precisão não pertence ao viver. É só se jogar! Parabéns pela conquista!