Faz quase um ano, Carol Bensimon comentou de uma pesquisa sobre o sumiço de palavras que retratam a natureza em produtos culturais. Faz quase um ano que fico de olho nessa ausência. Quanto mais contemporânea a leitura, maior a chance de eu não encontrar os 186 termos que os Selin Kesebir e Pelin Kesebir definiram como termômetro para analisar textos em inglês disponíveis no Google Books, publicados entre os anos 1900 e 2000. São palavras como colina, orvalho, neblina, arbusto, pântano, riacho, salgueiro, zimbro, begônia, margarida, calêndula.
Depois de passar um pente fino nos arquivos digitais, a queda que os pesquisadores observaram é deste tamanho aqui:
Eles apontam para causas óbvias: a urbanização acelerada a partir de 1950 e o avanço da tecnologia nas décadas seguintes, que, em vez de nos desafogar, aumentou o tempo que passamos em casa ou no escritório. Não estamos em contato com a natureza e, por isso, não escrevemos sobre ela. Não sabemos identificar o canto dos pássaros, não sabemos o nome de mais de meia dúzia de árvores, não andamos a esmo por planícies, nem escalamos montanhas. Rios até passam pela janela, mas como um estorvo para o deslocamento ou como ameaça de transbordamento.
Ler histórias que trazem esses elementos como algo corriqueiro parece mesmo coisa de outro século, de outra dimensão. Do tempo de Jane Austen ou fruto das mãos de Tolkien.
Não duvido que existam aqueles que ficam felizes com o minguar dessas descrições, aqueles que acham um saco, arrastado, que se perguntam o quê raio são bétulas. Pois eu sou do time dos que gostam, que vão pesquisar, que fecham os olhos e imaginam que ambiente é esse criado por essas palavras.
Os livros que mais me encantaram nos últimos tempos são gordos de expressões de natureza — sim, eles ainda existem. Em A parede, de Marlen Haushofer, a vida na floresta se impõe primeiro como um castigo misterioso e depois como libertação radical. Há ali tantas e tantas passagens com detalhes da vegetação, dos sons, das estações, dos alimentos que nascem na terra, dos animais que compartilham o mesmo espaço.
As noites nas montanhas eram sempre curtas demais. Eu não sonhava. O ar fresco da noite roçava-me o rosto, tudo parecia leve e livre, e nunca ficava totalmente escuro. Como o dia durava até tarde, eu ia para a cama mais tarde do que no vale. Sempre que fazia uma noite agradável, eu ficava sentada no banco em frente à casa, embrulhada no meu sobretudo impermeável de lã, e via os arrebóis cobrirem o céu do oeste. Mais tarde, eu via a lua nascer e as estrelas lampejarem no céu.
— na tradução de Sofia Mariutti
Arrebóis. Nunca tinha visto ou ouvido essa palavra. É a cor avermelhada que pinta o céu no nascer ou no pôr do sol. Aquele tom lindo, que vejo quando a cidade me permite um relance sem prédios à frente. Um tom que tem nome e eu não sabia, mas a literatura me fez saber.
Me fez pensar no som que sai do bico do pássaro preto ou da água quando escorre: “Ouço o gré gré abafado de um corvo, e o sh sh sh da água subindo pelas pedras.” (Tamara Klink em Bom dia, inverno)
Me colocou no corpo de uma corça que se esconde da maldade dos homens:
Que coisas não são boas?, pergunto. Muitas coisas. Outras corças? Se você ouve um som e não gosta dele. Se você sente um cheiro e não gosta. Então corra, corra, que essas perninhas são para correr muito. E então me põe de novo no esconderijo. Quieto, quieto, diz ela. E ouço o som das abelhas que procuram flores. E ouço o som dos pequenos animais que vivem debaixo da terra. O som dos pássaros que cantam. O som que a água faz quando cai do céu. O som da mãe quando vem. O som de sugar o leite. E então, de repente, ouço o som que mais me amedronta. O som mais terrível, o mais estridente. O som dos passos, alto demais. O som dos gritos, como um berreiro. O som que não vem do bosque, mas de um lugar que não conheço, de um lugar que não sei.
— Canto eu e a montanha dança, de Irene Solà e tradução de Luis Reyes Gil
A literatura me aproximou também de um clã de neandertais, fabulando as relações, os lutos, a linguagem vacilante, a violência, os sonhos:
A fome borbulha, perturbando a mente e as tripas. Na contramão do Sonho, há dias não come nada além de pasto, vento e água, e ele fecha os olhos, tenta respirar mais devagar, em busca da tranquilidade que só existe lá dentro, na solidão, embora não se sinta só, porque as estrelas e as pedras, os morcegos, tudo são companhias. Esvazia os pulmões, abre os olhos. Não entende por que acontecem tantas coisas dentro dele, tantas coisas fora, por que viver é tão confuso.
— Os imortais, de Paulliny Tort
Esse “viver é tão confuso” grudou em mim como “viver é negócio muito perigoso…” de Grande Sertão: Veredas, que tem também este outro trecho célebre:
O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.
Termino com ele, com esse romance gigante de Guimarães Rosa, de onde pingam palavras da nossa natureza, do nosso sertão. Palavras de dicionário, palavras inventadas. Lembretes de que homem não se separa do mundo, porque a gente também é mundo, também é bicho, ainda que a gente esqueça.

Em abril, Paulliny Tort conversou com a Folha e dois pontos me chamaram a atenção, os dois sobre linguagem e sobre ausências:
“Eu fiz um exercício, que até agora só a minha editora, Rita Mattar, conhecia: o de pegar um dicionário etimológico” —ela exibe o calhamaço para a câmera— “e jogar fora todos os verbos, substantivos, tudo que fosse anacrônico. Ficou algo cru mesmo. Deixei o texto assentar e reinseri algumas coisas, entre elas essas palavras. Queria trazer de volta um pouco do olhar de um narrador mais atemporal, para que a pessoa não esquecesse que um neandertal é um ser humano diferente daquilo que ela conhece.”
“Definir exatamente como seria essa linguagem [dos neandertais] seria uma fraqueza da minha parte. Como autora, gosto de trabalhar com os vazios e os mistérios. Gosto quando um livro me leva para lugares um pouco estranhos e nem tudo fica explicado.”
A nova arte de fazer livros, um manifesto (de 1975)
Não sei quando conseguirei ver a versão de Nolan para A odisseia, uma das minhas histórias favoritas da vida. Enquanto isso, leio opiniões e expectativas. Paula Maria fez um catadão bacana de referências e a Paula Carvalho narrou seu reencontro com o poema épico
Esportes na TV: revelado o maior segredo dos Homens Reunidos
O humor heterossexual
O fim da fome ou como perder a vontade de viver
Envie dois pacotes de madrugada amarga
Todo dia eu penso
16 de julho é o dia em que Liliana Rivera Garza foi assassinada pelo ex-namorado — uma violência terrível relatada no livro O invencível verão de Liliana, de Cristina Rivera Garza
Os cursos de inverno da FFLCH/USP abrem as inscrições já já — são todos gratuitos, mas dependem de sorteio de vagas. Um que fiquei muito interessada: Com o que as mulheres sonham? Relatos oníricos de escritoras estrangeiras.
E já estão abertas as inscrições para a nova edição do super curso Vida do Livro, que dá um panorama bacanérrimo do mercado editorial
Semana que vem tem FLIP \o/ Para quem vai, aqui está a famosa planilha que a Taty Leite produz com todas as mesas, as da programação oficial e as das casas paralelas. Na segunda-feira, envio para todos a *minha programação*, as coisas que eu realmente pretendo ver <3
Lançamentos que estou de olho:
Lia, Mira, Maria, de Marília Garcia
Sonhos da pessoa física, de Odorico Leal
Histórias de fantasma, de Siri Hustvedt e tradução de Ana Guadalupe
Já está liberado o vídeo que os apoiadores receberam no mês passado, com o registro de um dia corrido, as leituras da vez e um tour pelas minhas camisetas:
Queria ser grande, mas desisti também é livro \o/
E se quiser me acompanhar em tempo nada real: @babibomangelo






![Queria ser grande, mas desisti: Ensaios sobre literatura, maternidade e os efeitos de uma internet desenfreada por [Bárbara Bom Angelo] Queria ser grande, mas desisti: Ensaios sobre literatura, maternidade e os efeitos de uma internet desenfreada por [Bárbara Bom Angelo]](https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!H60d!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fbucketeer-e05bbc84-baa3-437e-9518-adb32be77984.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fd204cbe0-ff45-49db-8634-b7f03efa3fc3_313x500.jpeg)
A Trama das Árvores é um ótimo (e extenso) romance com muitas palavras de natureza.
aliás, traduzido pela Carol Bensimon
Que lindo!!! Sou da área ambiental, gosto de ler e como amo esses temas.
Recomendo Tudo que deixamos para trás e Além do Oceano de Maja Lunde... Infelizmente é uma trilogia, mas não espero ver o terceiro em português.