#279 Queria ser grande, mas desisti
a fabulação crítica a serviço do real
Foto de Polina Osipova
Fabulação não é uma palavra que habita as redações de jornalismo. Fabular é do campo da invenção, não combina com o ofício de contar o que realmente acontece no mundo e para isso, portanto, nos apoiamos em outras ferramentas: entrevistas, relatos, transcrições, documentos, dados. Mas e quando essas opções não existem ou são escassas ou são fragmentadas? A história de um momento assim, fraco em provas, não será contada? A história de populações, de modos de vida, de pessoas comuns que foram extraordinárias sem alarde ou marginalizadas de propósito serão perdidas, ignoradas? Por muito tempo foram e ainda são, mas há quem tente impedir, quem imponha resistência a esse império do exclusivamente embasado no real como única forma digna de recuperar fatos. Saidiya Hartman é uma dessas pessoas. Alguém que aplica o conceito de fabulação crítica para dar voz e corpo a momentos e personagens que desapareceriam sem um tanto de imaginação misturada a elementos históricos. O fabular a serviço do registro. Um fabular conectado a pesquisas rigorosas. É um pode ter sido assim responsável, com método. Em Vidas rebeldes, belos experimentos, traduzido aqui no Brasil por Floresta, Hartman une documentos e imagens esparsas à imaginação para contar a história de mulheres negras que desafiaram a norma da época em que viveram.
Fabulação crítica é também o que faz Cristina Rivera Garza. Em Autobiografia do algodão, traduzido por Silvia Massimini Felix, o esforço é para reconstruir um passado familiar que se entrelaça com um passado coletivo, de uma região na fronteira entre México e Estados Unidos que viveu um milagre econômico efêmero lá pelos anos 1930 por causa do chamado ouro branco, as lavouras de algodão. Garza desenha uma narrativa, classificada como ficção, que se reveza em contar as incursões que fez em busca de documentos e o exercício de imaginar que vidas eram aquelas, o que as pessoas que enfrentavam aquele ambiente duro conversavam, sonhavam, desejavam. Esses trechos são lidos como um romance: há protagonistas, reflexões internas, ações dramáticas, reviravoltas. Tudo a serviço de tornar palpável algo que do contrário não teria aparência nenhuma, seria esquecido por falta de materialidade.
É uma prática que reconhece as limitações dos tais elementos reais como único caminho para dar conta da experiência humana. É uma prática que reconhece o fazer literário como uma ferramenta importante para relatar mundos que já não existem ou aqueles que se desenrolam agora, enquanto olhamos para eles, mas que não vamos entender apenas analisando cruamente dados e eventos.
A fabulação crítica é um tapa de humildade na cara dos que acham que a realidade só se apreende a partir do que podemos tocar, provar. O Real, assim com letra maiúscula, na verdade não existe, é sempre sempre sempre uma construção.
*Agradeço imensamente ao querido Victor Pacheco, pois foi na defesa de doutorado dele que ouvi pela primeira vez sobre esse conceito. Foi ele também quem me apresentou à Saidiya Hartman. A tese do Victor trata das personagens negras na ficção contemporânea irlandesa e eu indico muito.
Liberei para todos o vídeo (longo, longuíssimo) em que falo de escrita de não-ficção e seus vários formatos
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Queria ser grande, mas desisti também é livro \o/
E se quiser me acompanhar em tempo nada real: @babibomangelo





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Bárbara, que mergulho incrível nesse universo da fabulação crítica! Admiro como você conecta imaginação e pesquisa para dar voz a histórias que poderiam se perder, e ainda compartilha suas descobertas com tanta generosidade. É um convite para pensar que o ‘real’ nunca é puro, que sempre existe o que imaginamos e sentimos entre os dados.
Mal sabe o jornalismo que um fato contado é sempre fabulado.